A retroprojeção de nossas carências
Quando estamos carentes, raramente enxergamos o outro como ele realmente é. Enxergamos aquilo que desejamos encontrar. Projetamos naquela pessoa a imagem de alguém que finalmente nos dará tudo o que um dia nos faltou: atenção, afeto, segurança, reconhecimento e acolhimento.
Sem perceber, transformamos uma pessoa comum em alguém extraordinário. Supervalorizamos seus gestos, atribuímos profundidade às suas palavras e interpretamos pequenas demonstrações de interesse como sinais de uma conexão única. Criamos qualidades que talvez nem existam e ignoramos defeitos que, em outras circunstâncias, seriam evidentes.
A carência não apenas aproxima pessoas. Ela também distorce a percepção.
Não nos apaixonamos exatamente por quem está diante de nós, mas pela promessa que construímos ao redor dessa pessoa. Amamos a possibilidade de sermos finalmente escolhidos, compreendidos e cuidados. Aquela pessoa passa a representar tudo o que não recebemos no passado e tudo o que desejamos experimentar no futuro.
É nesse momento que nasce a idealização. Leia-se: retroprojeção.
O outro deixa de ser uma pessoa real, com limitações, contradições, fraquezas e interesses próprios, e passa a ocupar o papel de salvador emocional.
Imaginamos que sua presença preencherá vazios antigos, corrigirá abandonos e compensará afetos que nos foram negados.
No entanto, muitas vezes, essa pessoa não é única, extraordinária ou superior. Pode ser alguém absolutamente comum e, em certos aspectos, até menos amadurecido, generoso ou preparado do que nós. O brilho que enxergamos nela não vem necessariamente de suas qualidades. Muitas vezes, vem da intensidade de nossa necessidade.
Quanto maior a falta, maior pode ser a fantasia.
Por isso, quando a realidade começa a aparecer, sentimos uma profunda decepção. Não porque a pessoa tenha mudado, mas porque a imagem que criamos já não consegue esconder quem ela sempre foi. O encanto se desfaz quando percebemos que estávamos nos relacionando mais com uma expectativa do que com um ser humano verdadeiro.
A dor, então, não nasce apenas daquilo que o outro fez. Nasce também da queda do personagem que construímos para ele.
Talvez amadurecer emocionalmente seja aprender a enxergar as pessoas sem colocá-las no lugar de nossas ausências. É compreender que ninguém deve carregar a responsabilidade de reparar tudo o que nos faltou. O outro pode compartilhar o caminho, oferecer afeto e construir conosco, mas não pode voltar ao nosso passado para preencher cada espaço que permaneceu vazio.
Quando reconhecemos nossas carências, deixamos de transformar pessoas comuns em promessas de salvação. Passamos a amar com mais lucidez, sem coroas imaginárias, sem qualidades inventadas e sem exigir que alguém seja a resposta para todas as nossas dores.
Porque, muitas vezes, aquilo que julgávamos ser amor por alguém era apenas a nossa carência contemplando, no rosto do outro, a imagem de tudo o que sempre desejou receber: a retroprojeção de nossas carências.
Artigo: Irmão Barbosa.
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Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
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