Entre a Voz de Deus e as Vozes da Mente

Entre a Voz de Deus e as Vozes da Mente

A seguir, apresento uma conversa entre mim e um querido irmão. Conversamos sobre as vozes que surgem na mente humana, a religião, a espiritualidade e o desafio de discernir aquilo que verdadeiramente orienta nossas escolhas.

Uma conversa entre dois irmãos

O Irmão Genoveze comentou sobre um artigo que escrevi para a revista A Verdade. A partir desse comentário, nasceu uma reflexão fraterna sobre religião, espiritualidade, consciência, razão e emoção.

A reflexão do Irmão Genoveze

Eu, particularmente, acredito que a religião não tenha tanta influência na origem dessas vozes interiores, pois isso dependerá muito do enredo e dos ensinamentos de cada tradição religiosa.

A grande maioria das religiões acaba sendo utilizada como forma de controle. Pouquíssimas trabalham verdadeiramente a consciência humana e a espiritualidade.

Existe espiritualidade sem religião, mas, em seu sentido mais autêntico, não deveria existir religião sem espiritualidade. Existem algumas manifestações espúrias, mas elas não se encaixam no verdadeiro conceito de religião.

As vozes de nossa mente podem surgir da dualidade existente dentro de nós, formada pela razão e pela emoção.

Deus pode falar conosco por meio das duas. Em alguns momentos, pela razão; em outros, pela emoção. Uma poderá falar mais alto do que a outra, de acordo com a questão que estivermos enfrentando.

Esse é o meu ponto de vista. Rs.

A minha resposta

Obrigado, meu irmão, por dedicar seu tempo à leitura do artigo e por compartilhar uma reflexão tão lúcida.

Ao longo dos meus 47 anos de existência, bati a muitas portas em busca de compreensão. Conheci o judaísmo e algumas de suas diferentes correntes. Mantenho contato com grupos ligados ao zoroastrismo no Brasil e na Índia. Dialoguei com amigos do budismo e conheci algumas de suas numerosas escolas.

Também me aproximei das religiões de matriz africana, passando pela beleza da Umbanda, pelas diferentes tradições do Candomblé e por suas diversas nações, que preservam, cada uma à sua maneira, vínculos com suas raízes ancestrais africanas.

Conheci ainda caminhos mais controversos, como algumas vertentes da Quimbanda luciferiana, além de outras interpretações espiritualistas.

Não satisfeito, continuei procurando. Estudei o taoismo, o jainismo, o confucionismo, as tradições tibetanas, a bruxaria clássica e até mesmo a Wicca, buscando compreender não apenas sua expressão contemporânea, mas também as possíveis raízes ancestrais com as quais ela procura dialogar.

Por meio de livros, estudos e contato com sacerdotes, busquei conhecer as tradições da Mongólia, o xintoísmo e diferentes manifestações da espiritualidade indígena.

Entre essas manifestações, considero a Jurema especialmente fascinante. Em meu entendimento, ela representa uma das expressões religiosas mais genuinamente brasileiras.

Depois de tantas viagens intelectuais e espirituais, percebi um padrão recorrente. Em muitas instituições, líderes se apropriam dos textos sagrados, dos símbolos e das práticas ritualísticas para conduzir ou controlar a maioria.

Isso não invalida a religião nem a espiritualidade, mas revela o perigo existente quando alguém entrega a própria consciência inteiramente às mãos de outra pessoa.

Por isso, concordo com você. Cabe a cada um de nós despertar e aprender a distinguir as vozes que surgem dentro de nossa mente.

Elias e o perigo da certeza absoluta

No relato bíblico do confronto no Monte Carmelo, Elias venceu os 450 profetas de Baal e, posteriormente, ordenou que fossem capturados e mortos.

O texto registra a atitude do profeta, mas não apresenta, naquele momento, uma ordem direta de Deus determinando aquela execução. É possível relacionar a atitude de Elias às antigas leis israelitas contra a idolatria. Ainda assim, permanece uma questão profunda sobre a responsabilidade humana diante daquilo que se acredita ser uma determinação divina.

Esse episódio nos convida a uma reflexão. Mesmo alguém plenamente convencido de representar o sagrado precisa discernir se está verdadeiramente ouvindo a voz divina ou interpretando como divina a própria razão, emoção, convicção ou impulso.

O desafio de compreender as vozes interiores

Talvez esse seja um dos maiores desafios do buscador. Não basta ouvir uma voz interior. É necessário compreender sua origem e analisar os frutos que ela produz.

O ser humano pode chamar de voz de Deus aquilo que nasce de seus próprios desejos. Essa voz também pode nascer de seus medos, de suas emoções, de sua formação religiosa, de seus preconceitos, de sua necessidade de aprovação ou de sua vontade de exercer poder sobre outras pessoas.

Uma orientação que conduz à crueldade, ao fanatismo, à humilhação ou à destruição da autonomia alheia precisa ser examinada com extremo cuidado, mesmo quando se apresenta revestida de uma linguagem sagrada.

Para realizar esse discernimento, precisamos recorrer à razão, à lógica, à consciência e, sobretudo, à orientação do nosso Mestre Interior, entendido como a consciência amadurecida pela razão, pela experiência e pela busca espiritual.

No fim, a religião pode apontar o caminho, mas é a consciência desperta que precisa decidir como percorrê-lo.

Obrigado mais uma vez pela contribuição, meu irmão. Seu ponto de vista enriquece profundamente esta reflexão.

Artigo: Irmão Barbosa


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Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
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O que é o Tolerâncialismo?

O que é o Tolerâncialismo Movimento filosófico que propõe a união de religiosos e irreligiosos, a partir da amizade entre as pessoas, tendo a religião e a irreligião como algo secundário. A investigação nos vales das religiões, filosofia e ciências deve ser a busca de todo tolerancialista. Primeiramente, deve ser celebrada a amizade entre as … Continue lendo O que é o Tolerâncialismo?