Entre a cruz e o chicote.

Entre a cruz e o chicote

Ao longo da história humana vemos que as instituições religiosas caminharam muitas vezes entre dois polos: o da luz espiritual e o da sombra do poder. Quando a fé se mistura com interesses políticos, econômicos e territoriais, surgem capítulos da história que merecem ser examinados com serenidade e coragem.

Diversos historiadores documentaram que instituições religiosas, em determinados períodos da história, possuíam terras, propriedades e até pessoas escravizadas. Essas instituições participavam economicamente da sociedade escravista que dominava o mundo colonial.

Esse é um tema complexo. Não falamos aqui para atacar a fé de ninguém, mas para compreender como as instituições humanas podem se afastar do espírito que dizem representar.

Bulas papais e a expansão colonial

No século XV, durante o período das grandes navegações europeias, surgiram documentos papais que influenciaram profundamente a expansão colonial. Esses documentos tiveram impacto político e religioso no processo de conquista de novos territórios.

Um exemplo frequentemente citado pelos historiadores é a bula Dum Diversas de 1452, do papa Nicolau V. Nesse documento o papa concedia autorização ao rei de Portugal para invadir, conquistar e subjugar sarracenos, pagãos e outros inimigos de Cristo, permitindo também reduzir suas pessoas à escravidão perpétua.

Poucos anos depois a bula Romanus Pontifex de 1455 reafirmou privilégios semelhantes. Esse documento permitia a exploração de territórios e o domínio sobre povos considerados infiéis dentro da lógica religiosa e política da época.

Esses documentos foram utilizados como justificativa religiosa dentro do processo de expansão colonial europeia. A religião e o poder político estavam profundamente ligados naquele contexto histórico.

A escravidão como instituição social

Durante muitos séculos tanto na Europa quanto em suas colônias a escravidão foi considerada por muitos pensadores e teólogos como uma instituição antiga da sociedade. Esse entendimento estava ligado à organização econômica e social de diversas civilizações.

A teologia dominante da época não tratava necessariamente a escravidão como intrinsecamente imoral. Em muitos casos ela era vista como uma realidade social que deveria apenas ser regulada moralmente.

Alguns pensadores religiosos defendiam que existiam formas de escravidão consideradas justas. Entre essas justificativas estavam prisioneiros de guerra, condenações penais e escravidão por dívida.

Dentro dessa lógica a escravidão de não cristãos foi muitas vezes tolerada pelas estruturas políticas e religiosas do período. Essa visão ajudou a legitimar sistemas sociais que hoje são amplamente condenados.

O caso do Brasil colonial

No Brasil colonial Igreja e Estado estavam profundamente ligados por meio do Padroado Real. Esse sistema unia a coroa portuguesa às instituições religiosas dentro do processo de colonização.

Nesse contexto ordens religiosas, irmandades e propriedades ligadas à Igreja existiam dentro da mesma sociedade escravista que dominava a economia colonial. A estrutura social da colônia dependia fortemente do trabalho escravizado.

Documentos históricos indicam que propriedades religiosas utilizavam trabalho escravo. Também existem registros de membros do clero que possuíam pessoas escravizadas e participavam da organização econômica da colônia.

Isso não significa que todos os religiosos concordassem com o sistema. No entanto mostra que a instituição religiosa estava inserida na realidade social daquele período histórico.

Um exemplo histórico no Brasil

Um exemplo conhecido dessa realidade é o tratado Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos publicado em 1705 pelo jesuíta Jorge Benci. Esse livro é frequentemente estudado por historiadores que analisam a relação entre religião e escravidão no período colonial.

Nesse livro o autor não questiona a existência da escravidão em si. Em vez disso ensina como um senhor cristão deveria governar seus escravos dentro de uma lógica moral religiosa.

Segundo essa obra os senhores deveriam garantir sustento, disciplina e instrução religiosa. O objetivo era orientar o comportamento do senhor dentro da estrutura social já existente.

A obra mostra como naquele período histórico muitos pensadores religiosos buscavam conciliar a moral cristã com a estrutura escravista existente. Esse tipo de literatura revela como a sociedade colonial compreendia a ordem social de sua época.

Igrejas protestantes também estiveram envolvidas

A participação no sistema escravista não foi exclusiva da Igreja Católica. Registros históricos mostram que instituições protestantes também estiveram ligadas à economia escravista.

Um exemplo conhecido ocorreu em Barbados no Caribe. Nesse local existiam plantações de açúcar ligadas a organizações religiosas.

No século XVIII plantações chamadas Codrington Plantations foram administradas por uma organização missionária da Igreja Anglicana. Os lucros dessas propriedades ajudavam a financiar atividades religiosas e educacionais.

Essas propriedades funcionavam com trabalho de pessoas escravizadas. Esse fato demonstra como a estrutura econômica colonial envolvia diferentes instituições da sociedade.

Mudanças ao longo do tempo

Com o passar dos séculos surgiram dentro do próprio mundo cristão vozes que passaram a condenar a escravidão. Essas mudanças ocorreram de forma gradual ao longo da história.

Alguns documentos importantes mostram esse processo de transformação moral. Entre eles estão a condenação da escravização de povos das Ilhas Canárias pelo papa Eugênio IV em 1435, a condenação da escravização de indígenas nas Américas pelo papa Paulo III em 1537 e a condenação do tráfico de africanos pelo papa Gregório XVI em 1839.

Essas mudanças mostram que a própria instituição religiosa passou por um processo gradual de revisão moral. A compreensão ética da escravidão foi sendo transformada ao longo dos séculos.

Entre a luz e a sombra

A história das religiões como a própria história da humanidade também obedece à lei da polaridade. Dentro de uma mesma instituição podemos encontrar ações positivas e negativas.

Existiram homens que justificaram injustiças e outros que lutaram contra elas. Alguns líderes se aproximaram do poder enquanto outros buscaram viver a compaixão.

Assim é a natureza humana. A história revela tanto as grandezas quanto as fraquezas da humanidade.

Uma reflexão final

Queridos irmãos este texto não tem o objetivo de questionar a fé de ninguém. Também não pretende afirmar que uma religião esteja certa ou errada.

A fé pertence ao coração de cada ser humano. Já a história pertence à consciência coletiva da humanidade.

Estudar o passado não destrói a fé. Pelo contrário pode ajudar a purificá-la.

Pois quando a espiritualidade se afasta do poder ela se aproxima novamente de sua origem. Essa origem é a busca sincera pela verdade.

E talvez essa seja a grande lição que a história nos oferece. Toda religião quando se mistura excessivamente com o poder humano corre o risco de se afastar do espírito que um dia tentou representar.

Artigo. Irmão Barbosa


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Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
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O que é o Tolerâncialismo?

O que é o Tolerâncialismo Movimento filosófico que propõe a união de religiosos e irreligiosos, a partir da amizade entre as pessoas, tendo a religião e a irreligião como algo secundário. A investigação nos vales das religiões, filosofia e ciências deve ser a busca de todo tolerancialista. Primeiramente, deve ser celebrada a amizade entre as … Continue lendo O que é o Tolerâncialismo?