Reflexões sobre o meu enterro
Talvez em algumas décadas, anos, meses ou até no próximo minuto, alguém esteja realizando o meu enterro. Talvez sejam meus filhos, meus irmãos, meus amigos ou mesmo desconhecidos, para que se cumpra o protocolo segundo o qual a matéria deve ser depositada no local adequado.
Tudo o que fiz e sonhei, inclusive os projetos inacabados, ficará aqui neste plano. Quem sabe algum deles seja terminado por outras mãos. Quem sabe permaneça apenas como um projeto que um dia sonhei e acabe, assim como eu, enterrado.
Hoje, em um domingo qualquer, decidi voltar a escrever. Esta é a pergunta que me persegue: de que adiantam todos esses textos e para quem eu escrevo? Será que isso algum dia servirá para alguém? Sigo escrevendo por escrever, talvez como um desabafo da minha alma, sem respostas diante da iminente finitude.
Um dia, tudo o que hoje considero urgente continuará existindo sem a minha presença. Meus projetos inacabados permanecerão como testemunhas silenciosas de que nenhum ser humano consegue concluir todos os seus sonhos.
Quando minha matéria for devolvida à terra, minhas conquistas perderão os títulos e conservarão apenas os significados. Significados esses que talvez só tenham importância para mim. Penso que, nesta vida, na maioria das coisas que fiz, sonhei sozinho.
Meu ego me faz acreditar que meu enterro será o encerramento da minha presença, mas não necessariamente o fim da minha influência. Então, faço a mim mesmo uma pergunta: que influência eu poderia exercer sobre quem quer que seja?
Algumas pessoas talvez chorem pela minha ausência; outras apenas cumprirão o protocolo. Ambas confirmarão que minha passagem terminou.
Talvez meus filhos contem histórias sobre mim; talvez meus netos conheçam apenas meu nome em uma fotografia antiga.
Diante do meu túmulo, pouco importará quanto dinheiro possuí, mas fará diferença todo o amor que fui capaz de oferecer. Há uma sentença iniciática, decifrada em um painel de Loja do Grau 3, que diz:
Amo Clavis Est Orbi Universi. O amor é a chave do universo. Isso eu pude presenciar: o único sentimento capaz de mudar a natureza de uma pessoa. Talvez ter vivenciado isso tenha feito valer a pena toda a minha existência.
Pensar no meu enterro não é desejar a morte, mas recordar que ainda estou vivo e que o tempo não me pertence. Um dia, meu lugar à mesa estará vazio, meu telefone permanecerá em silêncio e o mundo continuará seguindo seu caminho.
Meu corpo será depositado no local adequado, mas espero que minha memória encontre abrigo no coração de alguém. Penso que essa seja a maior preocupação de cada ser humano. Pelo menos, é nisso que o meu ego me faz acreditar.
Quem sabe eu parta no meio de uma frase, de um abraço, de uma preocupação ou de um sonho que acreditava ter tempo para realizar. Se todos os meus planos podem terminar comigo, então preciso aprender a viver também aquilo que não pode ser adiado.
Ao refletir sobre o meu enterro, compreendo que não devo temer apenas a morte, mas, principalmente, chegar até ela sem ter verdadeiramente vivido.
Artigo: Irmão Barbosa.
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Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
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