O Tempo, os Filhos e os Ciclos da Vida

O Tempo, os Filhos e os Ciclos da Vida

Você teve todo o tempo do mundo para seus filhos. E, de repente, quase sem perceber, eles já não têm mais tempo para você.

É natural, talvez seja preciso aceitar. Ainda assim, o olhar insiste em voltar ao passado, e a memória sussurra com a voz da antiga dedicação paterna, como se cobrasse cada gesto, cada renúncia e cada noite mal dormida dedicada à construção do futuro deles.

Dói admitir, mas essa cobrança nasce do ego. Esse guardião silencioso das expectativas nos faz acreditar que todo amor investido deveria retornar na mesma medida. Criamos os filhos para o mundo, não para nós. A própria natureza nos ensina que os filhotes são cuidados, alimentados, protegidos e, um dia, partem.

O leão não chora quando seus filhotes seguem o chamado da vida. Ele compreende o ciclo. Talvez esse também devesse ser o sentimento de cada pai quando vê seus filhos caminharem com as próprias pernas, seguindo o rumo que lhes pertence.

Afinal, fizemos o mesmo com nossos pais. Por que, então, seria diferente agora?

Talvez a dor tenha outro contorno quando carregamos histórias diferentes. Talvez eu me cobre de forma mais intensa porque, na velhice deles, fui pai dos meus próprios pais e caminhei ao lado deles até o fim. É natural que a voz do ego peça algo em troca, como se amor fosse moeda e cuidado gerasse crédito.

Mas a realidade é simples e verdadeira. Meus filhos não me devem nada. Cumpri minha missão para com eles.

Ainda assim, há ausências que pesam. Sinto falta das séries assistidas no sofá ao lado do meu filho e das idas e vindas da minha filha da escola e, posteriormente, da faculdade, enchendo a casa de movimento e sentido. Pequenos rituais que, na época, pareciam comuns, quase banais, e que hoje brilham na memória como joias raras.

São fases da vida. Sempre foram e sempre serão.

A vida é feita de ciclos que se abrem e se fecham sem pedir licença. Muitas vezes não percebemos o valor do instante enquanto o vivemos; só compreendemos sua grandeza quando ele já pertence ao passado. É curioso como só sentimos a plenitude de um momento quando ele se transforma em saudade.

Tudo passa e tudo se transforma. Há ciclos em que caminhamos de mãos dadas. Em outros, seguimos apenas com a lembrança do toque.

Por isso existe a urgência silenciosa de viver cada milésimo de segundo. Feliz pela companhia, pelos diálogos, pelas diferenças e até pelos desentendimentos que um dia também farão falta.

Porque, no fim, serão as memórias que permanecerão. Que sejam intensas. Que sejam verdadeiras. Que sejam vividas com a consciência de que, um dia, serão apenas isso, lembranças carregadas de amor ecoando suavemente no coração de quem soube sentir.

Artigo: Irmão Barbosa.


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Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
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O que é o Tolerâncialismo?

O que é o Tolerâncialismo Movimento filosófico que propõe a união de religiosos e irreligiosos, a partir da amizade entre as pessoas, tendo a religião e a irreligião como algo secundário. A investigação nos vales das religiões, filosofia e ciências deve ser a busca de todo tolerancialista. Primeiramente, deve ser celebrada a amizade entre as … Continue lendo O que é o Tolerâncialismo?