O Sarcófago é uma coisa, a múmia é outra.
Nem teus restos mortais, depois da tua morte, nem teu bens serão mais teu patrimônio.
Quando o último fôlego se dissipa, algo silencioso acontece: tua vontade se cala, tua posse termina, tua autonomia se dissolve no tempo. O que sobra de ti passa a pertencer aos outros, às mãos, às ideias e às decisões serão alheias a sua última vontade.
Veja Tutancâmon. Em sua época, decidiu-se que corpo e sarcófago eram indissociáveis. Ali estaria sua última morada. Ali repousaria sua eternidade. O ouro não era luxo, era símbolo da carne dos deuses. A múmia não era objeto, era a continuidade da alma.
Mas os séculos passaram. E uma nova geração, munida de ciência, museus e vitrines, decidiu diferente. O sarcófago virou arte. A múmia virou objeto de estudo. Separaram aquilo que, para ele, jamais poderia ser separado.
Decidiram por ele depois de sua morte. E os que vieram depois decidiram de outra forma ainda.
Essa é a lição dura que o tempo nos entrega: nenhuma decisão é definitiva quando você não está mais aqui para defendê-la.
Então por que tanto apego? Por que tanto medo? Por que viver como se tudo pudesse ser controlado até o fim?
O futuro não te pedirá permissão. Quando você não puder mais servir por si, servir-se-ão de você.
Talvez a verdadeira sabedoria não esteja em tentar garantir o que farão com teus restos, mas em compreender que a única coisa que realmente te pertence é o agora.
Todo o resto, até o teu próprio corpo, é empréstimo do tempo.
Imagine, com o passar dos anos, teu nome nas escrituras e nos cartórios de registro de imóveis como mera lembrança de quem você foi. Serão apenas registros imobiliários históricos, meros inventários de tudo o que você possuía.
Artigo: Irmão Barbosa.
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Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
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