O Barco de Teseu e o Irmão que Deixou de Ser Quem Ele Era

O Barco de Teseu e o Irmão que Deixou de Ser Quem Ele Era

Há um antigo paradoxo filosófico conhecido como o Barco de Teseu. Ele nos pergunta algo simples, mas incômodo. Se todas as partes de um barco forem substituídas ao longo do tempo, ele continua sendo o mesmo barco?

Guardemos essa pergunta.

Agora, olhemos para um homem.

No início, diziam. Mestre, esse é o irmão fulano de tal.

Ele era reconhecível. Ria alto, fazia piadas, aproximava as pessoas. Sua leveza era parte de quem ele era. Aquilo não era uma máscara, era a substância de que era feito aquele irmão.

Mas o meio em que ele estava começou a exigir mudanças.

Disseram que, para ocupar um determinado cargo, aquele jeito não combinava.

Disseram que ser engraçado não era coisa de liderança.

Disseram que leveza não inspirava respeito.

Disseram, repetidas vezes, que ele precisava se ajustar.

E ele se ajustou.

Primeiro, deixou algumas brincadeiras.

Depois, passou a medir as palavras.

Em seguida, engoliu opiniões.

Por fim, trocou quem ele era. As gargalhadas, o riso fácil e as brincadeiras foram substituídos por um silêncio sepulcral. Suas manifestações calorosas de outrora cederam lugar à liturgia do cargo. O velho homem havia sido apagado, mas ainda existia sob o verniz das responsabilidades que assumiu.

Nada disso aconteceu de uma vez.

Assim como no Barco de Teseu, nenhuma mudança parecia decisiva isoladamente.

Era sempre apenas uma tábua a menos.

Com o tempo, todas as qualidades que definiam aquele irmão foram substituídas.

A casca permaneceu. O nome, o rosto, o cargo.

Mas por dentro, já não havia o mesmo homem.

Então surge a pergunta inevitável. Ainda é o mesmo irmão?

O meio dirá que sim, porque a função é a mesma.

O cargo dirá que sim, porque o título permaneceu e o objetivo foi concluído.

Mas a consciência, se ainda existir, hesita.

Assim como no paradoxo de Teseu, não sabemos apontar o momento exato da perda.

Não há um dia específico em que o homem deixa de ser quem era.

A perda acontece aos poucos, de forma socialmente aceitável e moralmente silenciosa.

E aqui está o ponto central.

Quando tudo em alguém é moldado para agradar o meio, o que sobra não é identidade. É adaptação.

E adaptação sem limite não é evolução. É esvaziamento.

O paradoxo, então, deixa de ser apenas filosófico e se torna humano.

Se mudamos tudo o que somos para caber, ainda somos?

Se o preço da aceitação é a negação do essencial, o ganho compensa? Se abre mão de uma verdade interior para agradar os donos do teatro?

O que resta de uma pessoa após sucessivas tentativas de correção?

Talvez reste apenas a memória de quem ela foi.

Talvez reste apenas a função.

Ou talvez reste o silêncio incômodo de alguém que, ao olhar para dentro, já não se reconhece mais.

Um clone sem identidade. Quem ele era foi roubado. Apagaram o melhor que havia nele apenas para cumprir os propósitos que os dirigentes tinham para aquele ano.

O Barco de Teseu nos ensina que identidade não é apenas continuidade externa. É fidelidade interna.

E o homem que abandona completamente suas tábuas originais pode até continuar navegando. Mas já não sabe mais para onde nem por quê.

A verdadeira pergunta, portanto, não é se o barco ainda é o mesmo.

É se vale a pena chegar ao destino sem ser quem partiu.

Artigo: Irmão Barbosa.


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O que é o Tolerâncialismo?

O que é o Tolerâncialismo Movimento filosófico que propõe a união de religiosos e irreligiosos, a partir da amizade entre as pessoas, tendo a religião e a irreligião como algo secundário. A investigação nos vales das religiões, filosofia e ciências deve ser a busca de todo tolerancialista. Primeiramente, deve ser celebrada a amizade entre as … Continue lendo O que é o Tolerâncialismo?