A Coluna Quebrada e a Incompletude da Obra.

O simbolismo da coluna quebrada atravessa a tradição iniciática como um silêncio eloquente. À primeira vista, ela parece apenas um sinal de luto ou de interrupção, mas, em sua essência, revela uma profunda leitura sobre a condição humana, o limite da matéria e o chamado do espírito.

A coluna quebrada não fala apenas da morte do corpo, mas da incompletude da obra humana quando esta se encerra no ego e não se projeta para o plano espiritual.

A coluna quebrada não é apenas um símbolo externo erguido sobre túmulos ou gravado em pedras silenciosas. Ela é, antes de tudo, o próprio homem. É a imagem do ser humano que se ergue entre o céu e a terra, sustentando em si a tensão permanente entre o que aspira ser e o que efetivamente consegue realizar.

Na linguagem simbólica da tradição iniciática, o homem é coluna porque sustenta, é eixo porque liga, é pilar porque foi chamado a manter de pé um templo que não é feito de pedras visíveis, mas de consciência, ética e espírito. Contudo, essa coluna quase sempre aparece quebrada, não apenas pela ação do tempo, mas pela influência constante do ego.

O ego é a fissura invisível que antecede a ruptura. Ele se manifesta quando o homem confunde a obra com o reconhecimento, o caminho com o título e o serviço com a hierarquia.

Aventais diferenciados, patentes e cargos, que deveriam servir como instrumentos pedagógicos do símbolo, tornam-se, muitas vezes, ornamentos do orgulho. O coração esfria, a consciência se fragmenta, e a coluna que deveria sustentar o templo interior rompe-se antes de alcançar sua altura espiritual.

A grande obra não se conclui no plano da matéria. Toda tentativa de encerrá-la no mundo externo nasce incompleta. Da pedra bruta à pedra cúbica, o homem aprende disciplina, método e forma. Mas da pedra cúbica à Rosa Mística, aprende o desapego. Já não se trata de lapidar arestas visíveis, mas de dissolver o peso da vaidade, do desejo de superioridade e da ilusão de permanência.

A Rosa Mística não floresce sobre o ego. Ela surge quando o espírito assume o governo da matéria. Nesse ponto, o quaternário, símbolo da densidade, da forma e da repetição, submete-se ao ternário, que representa o espírito, a consciência e o sentido. No número sete, essa harmonia se revela não como simples soma, mas como integração viva. Quando o espírito domina a matéria, o homem deixa de ser apenas coluna e torna-se eixo consciente.

A coluna quebrada não denuncia fracasso, revela limite. Ensina que nenhum homem termina sua obra enquanto ainda se identifica com seus títulos. Ensina que a perfeição não é conquista externa, mas estado interior. E ensina que aquilo que não se conclui no plano visível prossegue no invisível, onde não existem graus, cargos ou distinções, apenas consciência.

Cada homem que parte deixa sua coluna interrompida no templo do mundo. Essa interrupção não é o fim da obra, mas o testemunho de que a verdadeira construção não pertence ao tempo. Aos que permanecem, cabe continuar, não repetindo gestos vazios, mas aprofundando o sentido. Honrar a memória não é conservar símbolos, é vivê-los.

Assim, a coluna quebrada torna-se um chamado silencioso para que o homem abandone o peso do ego, reacenda o coração e compreenda que a verdadeira construção não se mede pela altura alcançada na matéria, mas pela profundidade atingida no espírito. Somente então a coluna deixa de ser quebrada, não porque se completa, mas porque se entrega ao eterno.

Artigo: Irmão Barbosa.


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O que é o Tolerâncialismo?

O que é o Tolerâncialismo Movimento filosófico que propõe a união de religiosos e irreligiosos, a partir da amizade entre as pessoas, tendo a religião e a irreligião como algo secundário. A investigação nos vales das religiões, filosofia e ciências deve ser a busca de todo tolerancialista. Primeiramente, deve ser celebrada a amizade entre as … Continue lendo O que é o Tolerâncialismo?